Na política potiguar, tem adversário que tenta diminuir o candidato e acaba entregando a ele o slogan da campanha. Allyson Bezerra já viveu esse roteiro em Mossoró e agora volta a explorar a ironia, desta vez com um calango no centro da disputa.
Na política, às vezes o adversário prepara o ataque, escolhe a palavra, ensaia a cara de deboche e, sem perceber, entrega o presente embrulhado ao concorrente. Allyson Bezerra parece conhecer bem esse roteiro. Em 2020, Rosalba Ciarlini resolveu chamá-lo de “pobrezinho”. A intenção era ironizar a origem humilde do então candidato. Só que Allyson não se encolheu, não pediu licença para existir e tampouco tentou esconder de onde veio. Abraçou a provocação, transformou-a em discurso sobre suas raízes e fez do episódio um dos momentos mais lembrados daquela campanha. No fim, derrotou Rosalba e conquistou a Prefeitura de Mossoró. A expressão que pretendia diminuí-lo acabou virando combustível político.
Agora, o roteiro ganha uma nova espécie no zoológico eleitoral potiguar: o calango. Uma aliada do PT, a deputada Isolda Dantas, usou o apelido para provocar Allyson, mas o candidato tratou de virar o jogo e associar o animal à resistência do sertão. E convenhamos: o calango não precisa de palanque climatizado, não reclama do sol do Nordeste e não espera que a vida fique fácil para seguir em frente. É pequeno, ligeiro e acostumado a sobreviver onde muita gente só enxerga dificuldade. Nas redes sociais, a sátira virou material para vídeos, memes e disputa de narrativas. O que era para ser uma ofensa ganhou uma segunda vida como símbolo de identidade sertaneja. Na política digital, há uma regra cruel: quem lança o apelido nem sempre controla o significado que ele ganha depois.
Mas, além da fauna eleitoral, há uma disputa de verdade. Allyson deixou a Prefeitura de Mossoró com uma base política que aponta sua gestão como credencial para governar o Estado, enquanto críticos questionam suas decisões e cobram esclarecimentos sobre investigações em andamento. Nas pesquisas, o ex-prefeito apareceu na liderança em diversos levantamentos ao longo da campanha; no segundo turno, porém, a corrida se estreitou. A Quaest divulgada em 13 de outubro registrou 45% para Allyson e 42% para Cadu de Lula, cenário de empate técnico dentro da margem de erro.
Moral da história? Em eleição, chamar alguém de “pobrezinho” ou “calango” pode render manchete, mas não substitui propostas, prestação de contas nem debate sobre o futuro do Rio Grande do Norte. E, se os adversários continuarem escolhendo os apelidos de Allyson, talvez precisem tomar cuidado: o próximo bicho pode acabar virando mascote de campanha antes mesmo de terminar o discurso.


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