Reação do mercado à reeleição provoca uma das maiores quedas da Bolsa desde o Plano Real; bancos, Petrobras e grandes empresas estão entre os mais atingidos
A vitória de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) nas eleições presidenciais provocou uma forte reação negativa no mercado financeiro brasileiro nesta segunda-feira (26).
O tamanho do impacto pode ser medido em números: as empresas listadas na B3 perderam R$ 734 bilhões em valor de mercado em apenas um pregão, segundo levantamento citado pela CNN Brasil. O montante corresponde a aproximadamente 98,4% do valor de mercado da Petrobras.
O Ibovespa chegou a registrar queda superior a 17% durante o pregão, uma das maiores retrações de sua história. Ao final do dia, o principal índice da Bolsa brasileira fechou em queda de 13,88%, aos 176.608 pontos. O movimento foi tão intenso que o circuit breaker precisou ser acionado, pela primeira vez desde a pandemia de Covid-19.
Mercado havia apostado em outro resultado
A reação não aconteceu por acaso.
Segundo a CNN Brasil, parte significativa dos investidores havia se posicionado esperando a vitória do senador Flávio Bolsonaro no segundo turno. A confirmação da reeleição de Lula obrigou esses investidores a rever posições e expectativas.
O resultado eleitoral, portanto, produziu uma forte reprecificação dos ativos brasileiros
O dólar chegou a subir mais de 12% durante a manhã e encerrou o dia próximo de R$ 5,40. Os juros futuros também dispararam, com a taxa para janeiro de 2031 chegando a subir mais de 300 pontos-base durante o pregão.
O movimento revela que o mercado passou a exigir um prêmio maior para assumir riscos relacionados ao Brasil.
Itaú, Petrobras e bancos sofrem forte pressão
A turbulência atingiu algumas das maiores empresas do país.
No mercado americano, os recibos de ações brasileiras chegaram a registrar quedas superiores a 20%. Segundo a CNN Brasil, Petrobras recuava 20%, Itaú Unibanco 28,5%, Bradesco 26,8% e Nubank 24% no pré-mercado.
O ETF iShares MSCI Brasil, utilizado por investidores internacionais para acompanhar o mercado brasileiro, chegou a cair 26%.
É importante fazer uma distinção: a queda das ações não significa que essas empresas tenham registrado prejuízo contábil equivalente à perda de valor de mercado.
O que desapareceu naquele pregão foi valor de mercado — isto é, o preço pelo qual os investidores estavam dispostos a avaliar aquelas companhias na Bolsa.
Ainda assim, uma perda dessa magnitude não é irrelevante. Ela reduz o patrimônio dos acionistas, encarece a captação de recursos e pode afetar decisões futuras de investimento.
Santander deixa o Brasil? Não há confirmação
Em meio ao nervosismo dos investidores, começaram a circular informações sobre uma possível saída do Santander do Brasil.
Até o momento, porém, não há confirmação de que o banco espanhol esteja deixando o país.
O Santander Brasil sofreu pressão no mercado, mas transformar a queda das ações em anúncio de saída do país seria ir além das informações comprovadas.
A discussão que realmente importa é outra: qual será o impacto de um ambiente de maior risco, juros elevados, incerteza fiscal e forte volatilidade sobre as decisões de investimento das grandes empresas?
O risco de o capital procurar outros destinos
Uma das consequências possíveis de um ambiente econômico percebido como mais arriscado é a redução dos investimentos.
Empresas multinacionais não precisam necessariamente fechar suas operações para reduzir sua exposição a um país. Podem simplesmente adiar novos projetos, diminuir investimentos, direcionar capital para outras economias ou escolher outros países para instalar futuras operações.
É por isso que a reação da Bolsa merece atenção.
Uma queda de R$ 734 bilhões em valor de mercado em um único dia não significa que R$ 734 bilhões tenham sido retirados fisicamente do Brasil, mas representa uma mudança brutal na avaliação que os investidores fizeram das empresas brasileiras.
E, se essa percepção permanecer, poderá influenciar decisões de investimento daqui para frente.
CNN: Lula terá de reconstruir pontes com o mercado
A própria CNN Brasil publicou uma análise apontando que Lula terá, no quarto mandato, o desafio de reconstruir as pontes com a economia, o setor privado, os empresários e o mercado financeiro.
A análise destaca que o governo precisará demonstrar compromisso com as contas públicas e com um ambiente de negócios estável.
É justamente esse o ponto que começa a preocupar investidores.
O mercado não reage apenas ao nome de quem ocupa a Presidência. Reage às expectativas sobre gastos públicos, dívida, juros, inflação, crescimento econômico, tributação e segurança para investimentos.
Um sinal que o novo governo não poderá ignorar
A Bolsa vinha acumulando forte valorização antes da eleição. Entre 2 e 23 de outubro, o valor de mercado das companhias listadas na B3 havia aumentado R$ 409 bilhões.
Na segunda-feira, porém, praticamente todo esse ganho foi eliminado.
Segundo o levantamento divulgado pela CNN, a perda de R$ 734 bilhões deixou o valor de mercado das empresas da B3 em R$ 4,95 trilhões, abaixo dos R$ 5,684 trilhões registrados na sexta-feira anterior.
O episódio não significa, por si só, que o Brasil esteja diante de uma fuga generalizada de empresas ou que bancos estejam prestes a abandonar o país.
Mas representa um forte sinal de desconfiança de parte dos investidores e coloca sobre o novo governo uma tarefa imediata: convencer o mercado de que haverá previsibilidade fiscal e segurança para quem produz, investe e emprega.
A pergunta agora não é apenas quanto a Bolsa caiu.
A questão central é quanto tempo levará para recuperar a confiança perdida — e se o governo conseguirá impedir que a incerteza transforme uma forte correção de mercado em uma deterioração mais prolongada dos investimentos no país.

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