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Zanin rouba a cena com canetada e muda regra no fim da eleição


Uma eleição pode sobreviver a uma disputa apertada, a discursos inflamados e até a uma guerra de versões. O que não deveria precisar sobreviver é à mudança das regras quando a votação já está terminando. Foi exatamente isso que aconteceu no segundo turno de 2026: após o encerramento previsto para 17h, o ministro Cristiano Zanin, do STF, determinou a extensão da votação até 19h nas seções que ainda permaneciam abertas, atendendo a uma ação apresentada pela campanha de Lula. O TSE chegou a suspender temporariamente a totalização dos votos já recebidos antes de retomar o processo.

A comparação com a Venezuela de 2015 inevitavelmente aparece no debate. Naquele ano, durante o governo Nicolás Maduro, o Conselho Nacional Eleitoral também estendeu o horário das eleições legislativas de 18h para 19h, alegando que ainda havia eleitores aguardando nas filas. O resultado daquele pleito, porém, foi uma vitória expressiva da oposição. Portanto, não há base factual para dizer que os dois episódios foram uma mesma “estratégia” ou que um tenha provocado determinado resultado. O que existe é uma semelhança objetiva: em ambos os casos, o horário originalmente estabelecido foi ampliado no próprio dia da votação.

É justamente aí que mora a inquietação. Regra eleitoral precisa ser previsível, impessoal e definida antes de a urna começar a receber votos. Quando a linha de chegada é deslocada no momento em que a corrida está terminando, ainda que exista uma justificativa operacional legítima, abre-se uma ferida de confiança que nenhuma nota oficial consegue simplesmente fechar. E há um agravante político impossível de ignorar: a decisão brasileira foi tomada após provocação da campanha de Lula, enquanto a campanha de Flávio também havia apresentado pedido de extensão por problemas provocados pelas chuvas em determinados municípios.

Não se pode transformar essa circunstância, sem prova, em acusação de fraude ou afirmar que ela determinou o resultado. Mas também seria ingenuidade tratar o episódio como se fosse uma alteração burocrática qualquer. Uma eleição presidencial não pode depender da sensação de que alguém apertou o botão de pausa quando a apuração já começava. O TSE informou que somente as seções ainda abertas permaneceriam funcionando e que os boletins e a totalização seriam retomados depois das 19h.

O problema maior, portanto, não é apenas quem venceu ou perdeu. É a confiança do eleitor na regra do jogo. Se o horário pode mudar no último instante por uma decisão individual, a pergunta que fica para o futuro é inevitável: quem garante que a próxima eleição terá exatamente as mesmas regras do primeiro minuto ao último voto? Democracia não pode ser apenas o anúncio do vencedor; precisa ser também a certeza de que ninguém mudou a pista enquanto os corredores ainda estavam competindo.

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