Na cidade de Macau, no Rio Grande do Norte, há um fenômeno político que merece destaque: as mulheres ocupam praticamente todos os espaços de poder. A prefeita é mulher. A secretária de Ação Social, mulher. A de Educação, mulher. A procuradora do município, mulher. A secretária da Mulher, mulher. A presidente da Câmara, mulher. Duas vereadoras, uma promotora de justiça e uma juíza — todas mulheres. Até o Conselho Tutelar é majoritariamente feminino. É quase uma revolução silenciosa, um sopro de representatividade que deveria ser motivo de orgulho.
Mas aí vem o choque de realidade: enquanto o município ostenta esse protagonismo feminino nos cargos públicos, as cidadãs comuns precisam se deslocar absurdos 150 km até Ceará-Mirim para dar à luz. Sim, em pleno século XXI, em uma cidade governada por mulheres, as próprias mulheres não têm acesso digno ao parto em sua terra natal. É como se o poder fosse apenas um enfeite, uma vitrine bonita para esconder o despreparo e o descaso.
O Contraste Cruel
Mulheres no comando: símbolo de avanço e representatividade.
Mulheres no cotidiano: obrigadas a enfrentar estradas e riscos para exercer o direito básico de parir com dignidade.
É quase irônico — e aqui cabe o sarcasmo — que uma cidade tão “progressista” na política seja tão medieval na saúde. O discurso de empoderamento cai por terra quando a prática revela desprezo pela vida das mulheres comuns. Afinal, de que adianta ter uma prefeita, secretárias e juízas se a cidadã macauense não pode sequer contar com uma maternidade funcionando?
O Despreparo Escancarado
O caso de Macau expõe um paradoxo doloroso: o poder feminino não se traduz em políticas públicas eficazes. É como se o protagonismo fosse apenas simbólico, sem impacto real na vida da população. O despreparo é gritante, e o desprezo pelas necessidades básicas das mulheres é quase criminoso. Não se trata de falta de representatividade, mas de falta de ação.
Enquanto os gabinetes se enchem de discursos sobre igualdade e empoderamento, as estradas se enchem de gestantes desesperadas, viajando quilômetros para garantir o mínimo: nascer com dignidade.
Esse é o tipo de matéria que deveria provocar reflexão profunda. Não basta ocupar cargos; é preciso transformar poder em políticas concretas. Macau mostra que representatividade sem compromisso é só maquiagem política.

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