O artigo 37 da Constituição Federal estabelece que a administração pública deve ser regida pela impessoalidade, princípio que impede que gestores utilizem o patrimônio coletivo como extensão de sua imagem ou propaganda.
Em Macau, porém, a prefeita Flávia Veras parece ignorar esse limite constitucional. Na obra da entrada da Praia de Camapum, o espaço público foi cercado por bandeiras rosas — a mesma cor que marcou sua campanha eleitoral. O gesto, longe de ser decorativo, é simbólico e político: transforma uma obra que deveria representar o povo em vitrine de autopromoção.
Não se trata de estética, mas de apropriação. O rosa, erguido em bandeiras ao redor da obra, funciona como um selo partidário fincado no coração da cidade. É como se cada bandeira fosse um lembrete de quem governa, um recado subliminar de que a obra tem “dona”. Só que, por direito, embora a prefeita tenha sido eleita, quem realmente manda é o pai, o ex-prefeito Flávio Veras. A filha segura o cargo, mas o pai dita as regras — uma espécie de “prefeitura em família”, em que o povo assiste a uma repetição de capítulos antigos, agora com bandeiras rosas tremulando como cenário.
O problema é que essa encenação fere de forma direta o princípio da impessoalidade. O espaço público não pode ser transformado em palanque permanente nem em vitrine de vaidade familiar. Macau não é herança, não é propriedade privada, não é palco para dinastias políticas. É cidade, é povo, é patrimônio coletivo.
Assim, enquanto as bandeiras rosas balançam ao vento, fica a impressão de que a Constituição foi deixada de lado e substituída por um manual de autopromoção. E o recado subliminar é claro: em Macau, quem manda não é a prefeita, mas o patriarca — e isso, além de inaceitável, beira o cômico.

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